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por Álvaro Pereira Júnior
publicado originalmente na coluna "Ilustrada" do jornal Folha de S. Paulo em 20 de agosto de 2011

Está na "Intelligent Life", revista indispensável: Pete Townshend, uma das figuras mais conhecidas do século 20, gênio da cultura pop, exala insegurança por todos os poros.
O líder da banda The Who, autor de versos definitivos ("espero que eu morra antes de ficar velho"), guitarrista de um estilo único, ideólogo insolente de uma geração, ainda precisa se autoafirmar, ironizar rivais, mandar e-mail atrás de e-mail para o repórter, completar pensamentos, refazer raciocínios, se explicar, se explicar, se explicar.
Parece esquecer que tem 66 anos, que seu legado está consolidado. Há décadas ninguém coloca seu talento em questão.
Na reportagem, de Simon Garfield, Townshend diz estar escrevendo a autobiografia, que ele insinua ser muito melhor que a de Keith Richards por ter sido feita a próprio punho, e não por um "ghost writer", como a do rolling stone. Também deixa claro que o The Who era ele e só ele, embora tivesse se esforçado para que seus companheiros de banda se sentissem "parte do processo".
Fala mal dos fãs ("são meus patrões e detesto ter chefe"). Revela que guarda até hoje cartas fechadas de admiradores, enviadas nos anos 60 — às vezes abre uma e se depara com fotos de japonesinhas de 14 anos de quimono, se oferecendo para casar.
No texto da "Intelligent Life", Townshend rivaliza o tempo todo com Roger Daltrey, o vocalista do Who (só restam os dois da formação original — Keith Moon, baterista, morreu em 1978; John Entwistle, baixista, em 2002).
Nas respostas, faz de tudo para se mostrar produtivo e ainda pleno de inquietação juvenil. Mas acaba transmitindo, acima de tudo, insegurança.
O que nos leva a uma situação correlata no Brasil: o barraco "high-brow" travado aqui mesmo, na Ilustrada, entre os maiores poetas brasileiros vivos, Augusto de Campos e Ferreira Gullar.
Ambos têm 80 anos (Gullar faz 81 no mês que vem). Ninguém contesta a força de suas obras. Mas, como Pete Townshend, parecem se esquecer da idade e da própria importância. Polemizam como dois jovens franco-atiradores em busca de afirmação.
A briga é sobre quem percebeu primeiro o valor da obra de Oswald de Andrade (1890-1954), que até morrer era visto como um fanfarrão, maior como figura social do que como autor.
Segundo escreveu Ferreira Gullar no artigo que engatilhou a encrenca, foi ele, num almoço no Rio, em 1954 (ou seja, há 57 anos!), que chamou a atenção de Augusto para a obra de Oswald. Augusto teria demonstrado um desinteresse inicial, qualificando Oswald como "irresponsável".
Seria como se Pete Townshend e Roger Daltrey decidissem brigar, em 2011, sobre qual deles foi o primeiro a escutar Bob Dylan e perceber a importância do americano para o rock das futuras gerações.
Em réplica furiosa na Ilustrada, Augusto tascou em Gullar aquela que, no universo concretista, deve ser a mais pesada das ofensas: "monoglota". Também xingou o maranhense de ególatra, mas aí não colou. Seria o mesmo que Pete Townshend, conhecido por, numa escala de um a dez, tocar no volume 11, acusar outro guitarrista de "barulhento".
Em texto de resposta, Gullar, entre outras delicadezas, chamou Augusto de "mentiroso" e "ressentido". É assim há mais de 50 anos — os dois vivem às turras. E, infelizmente, parece que a discussão é mesmo séria, baseada em convicções artísticas e literárias (seria mais interessante descobrir que esse ódio vem, por exemplo, de um ter roubado a namorada do outro).
Aliás, namoradas também são assunto na entrevista de Townshend. Nesse tema, pra variar, ele exerce o espírito de competição. Conta que, depois de um casamento de 26 anos, decidiu cair na esbórnia. Mas, quando percebeu que jamais chegaria à estupenda marca de 5.500 namoradas de Eric Clapton, recolheu-se à própria insignificância e entrou em nova relação estável.
Bem menos divertida é a prisão de Townshend em 2003, acusado de se inscrever num site de pornografia infantil. Ele alega que estava apenas pesquisando, para depois denunciar. De fato, o processo não foi adiante. Mas o prestígio ficou manchado.
Como está agora maculada, ainda que em proporção infinitamente menor, a reputação dos brigões Augusto de Campos e Ferreira Gullar.
A sorte de Townshend e dos poetas brasileiros é ter uma obra monumental. Não há deslize que apague isso.
5 comentários
por mais que o Pereira Junior tenha uma idéia negativa da postura do Pete, esse comportamento exercido por ele no ápice dos seus 66, nama mais é que do que a essência do que o tornou conhecido sempre em suas entrevistas e composições: a polêmica. no fim das contas, acho até engraçado.
Postado em 13 de setembro de 2011 11:28
É verdade, pra quem sempre acompanha as entrevistas do Pete isso é muito normal (é até esperado).
Postado em 14 de setembro de 2011 11:07
Onde que o Eric Clapton teve 5500 namoradas?
Postado em 13 de outubro de 2011 17:28
Se o Alvinho "Peter Pan" Pereira Júnior tivesse se dado ao trabalho de ouvir as coletâneas "Scoop", veria que o Pete Townshend é mesmo o The Who. Fazia as músicas sozinho, tocava todos os instrumentos e depois dava para os outros tocarem e o Roger Daltrey cantar. Espero que o idoso da Folhateen tenha sido demitido da Folha, junto com os outros jornalistas, recolhendo-se à insignificância do Fantástico, aquele programa para aposentados, que passa nos domingos na Rede Globo.
Postado em 13 de novembro de 2011 09:31
Realmente, a gente ouve "Scoop" e pensa: "Porra, o cara é bom, mas que falta fazem Roger, Keith e John....". "Outros tocarem?" Os caras detonam!!! Todos eles!! Long Live Rock!
Pete cantando ao vivo só pra fã (meu caso, acabei de ver o DVD Quadrophenia 96-97).
Postado em 24 de janeiro de 2012 00:12
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